sexta-feira, 6 de maio de 2011

A tragédia de Euclides da Cunha, Ana de Assis e Dilermando de Assis


Há cem anos, júri absolvia assassino de Euclides da Cunha

por Lizbeth Batista
06.maio.2011 08:26:41

Euclides e Dilermando

O desfecho jurídico de um dos crimes passionais mais célebres do Brasil  foi um dos destaques da capa da edição de 100 anos atrás do Estado: a absolvição de Dilermando de Assis, assassino do jornalista e escritor Euclides da Cunha.

Julgado pelo crime cometido em 15 de agosto de 1909, Dilermando foi absolvido após o júri entender que ele agiu em legítima defesa.  Sabendo que sua mulher Ana cometia adultério com o jovem oficial do Exército, Euclides decidiu ir até a casa do amante dela para “matar ou morrer”. Após um desastrado confronto no qual acertou três tiros em Dilermando e outro no irmão do militar, Euclides, também baleado, tombou morto na porta da frente da casa do rival.


Sabbado, 06 de maio de 1911


O Estado, jornal para o qual Euclides trabalhava e onde publicara a sua célebre cobertura  sobre a Guerra de Canudos, reproduziu uma nota indignada publicada originalmente no diário  ’Notícia’: “Enquanto o marido apodrece na sepultura, o amante é posto na rua pelos senhores jurados”.

Na edição do dia anterior, O Estado informara  sobre o início do  julgamento. A nota descrevia como se deu o sorteio e a formação do júri.  E trazia trechos da fala de abertura do promotor e da argumentação do advogado de defesa.

O Estado de S.Paulo 05/05/1911


Nota do blog: Ana Emilia Solon Ribeiro era filha do Coronel Solon Ribeiro da Cunha, futuro general, integrante do grupo que proclamara a República. Euclides e Ana começaram a namorar em novembro de 1889, ainda muito jovens - ele com 24, ela com 17 - e casaram-se logo, em 1890. Em 1892, ano em que Euclides completa o curso avançado na Escola Superior de Guerra, nasce o primogênito Solon Ribeiro da Cunha, que recebe o nome em homenagem ao avô. No ano seguinte nasce Euclides Filho, o segundo filho, apelidado de Quidinho. Em 1901, o terceiro, Manuel Afonso.

Em 1902 Euclides da Cunha publica Os Sertões, que escreveu mesmo dedicando-se à profissão de engenheiro militar, depois engenheiro civil, professor, jornalista, mudando de cidade em cidade, sem parada. Candidatou-se e obteve o cargo de Chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, para onde partiu, de navio, em dezembro de 1904 e retornou em janeiro de 1906.

Em dezembro de 1906, Euclides toma posse na cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras, que pertencera a Castro Alves.
No período em que ficou no Norte do país, sua mulher Ana, então com 33 anos, apaixonou-se loucamente por um lindo cadete, alto, louro, de olhos verdes, de apenas 17 anos, que conhecera em São Paulo dois anos antes: Dilermando Cândido de Assis. O tio de Dilermando era tutor dos filhos do casal nas muitas ausências de Euclides. 

Uma paixão explosiva se apossou de ambos e, quando Euclides retornou à casa em 1906, depois de ficar mais de um ano em expedição, Ana estava grávida. O filho Luiz nasce em 1907, louro como Dilermando, e Euclides costumava referir-se a ele como "uma espiga de milho no meio do cafezal", dada a morenice dos irmãos Solon, Quidinho e Manuel Afonso.

As brigas do casal, que eram constantes, tornam a situação insustentável e Ana foge, com o pequeno Luiz, para a casa de Dilermando. Euclides manda o filho mais velho buscá-los e, sem sucesso, dirige-se ele mesmo à casa, mas portando um revólver. Atinge com dois tiros Dinorah, irmão de Dilermando e cadete da Marinha. Mais dois tiros acertam o rival. Euclides tombou morto, fulminado por Dilermando, que era campeão de tiro no Exército. Era 15 de agosto de 1909.

Contra Dilermando, o Ministério Público oferece denúncia em 24 de setembro de 1909, assinada pelo meu colega Adjunto de Promotor José Saboia Viriato de Medeiros.

A tragédia não termina aí. Ana casa-se com Dilermando e tem com ele mais 4 filhos, além de Luiz: João, Judith, Laura e Frederico. Em 1916, durante uma discussão, Euclides Filho atira em Dilermando, que reage prontamente, revida e o mata. Novo julgamento, nova absolvição por legítima defesa. No mesmo ano de 1916, o primogênito Solon é assassinado misteriosamente na Amazônia. Por volta de 1921 ou 1922, Dilermando abandona Ana por outra mulher, com a qual teve uma filha, Dirce.

Dizem que a sombra da tragédia perpetua-se no tempo como uma maldição sobre os familiares até os dias de hoje. Se souberem de algo, postem aqui...

Fontes: 
- Academia Brasileira de Letras 

- Arquivo Estadão, série especial sobre Euclides da Cunha;

- "Euclides da Cunha: autos do processo sobre sua morte", org. Walnice Nogueira Galvão, consultoria de Domício Pacheco e Silva Neto, Editora Terceiro Nome, 2a. ed., 2009. (este livro traz a íntegra do processo da morte de Euclides, acusação da qual Dilermando foi absolvido, com fotos das peças processuais. Precioso retrato histórico!)



 

25 comentários:

  1. Tragico, é a vida, e naquele tempo...Euclides foi muito forte.

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    1. Anna foi forte!Experimente viver com um marido louco,expropriada da mais remota esperança de felicidade...Não somos latrinas,Anna sempre será exemplo de corajem

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    2. Anna não passou de uma vagabunda egoísta, foi condenada pela própria sociedade da época e o próprio sentimento frivolo a condenou : Provou do próprio veneno e teve um fim triste e doente nada e por acaso e quem disse que a felicidade que não teve com Euclides encontrou com dilermando? Viveu uma juventude e foi esquecida na velhice pelo mesmo garotao que a trocou por outra mais nova.

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  2. Elclides foi o escritor mais culto do Brasil na parte gramatical . Pena ter tido esse desfecho trágico em sua vida pessoal.

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  3. Fico muito curiosa com o fato de que o assassinato de Sólon Ribeiro da Cunha aqui no Acre, mais precisamente no município de Tarauacá que naquele tempo era uma vila, Vila Seabra, não conste na literatura local, nem histórica, nem romanceada. Esse fato não existe na memória social e histórica do Acre. Por que? Onde encontrar fontes com informações e dados sobre esse fato?Existiu alguma notícia de jornal, notícias sobre o local onde foi sepultado? Afinal, onde está sepultado Sólon Ribeiro da Cunha? é óbvio que ele foi destacado para o Acre porque este Estado, na época, território federal era para onde enviavam os indesejáveis, os degredados como os revoltosos da revolta da chibata e a da vacina.

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    1. No livro Crônica de uma Tragédia Inesquecível - Autos do processo de Dilermando de Assis que matou Euclides da Cunha da Editora Alabatroz, Loqui e Terceiro Nome, há um trecho do livro relatando a morte de Solon.

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    2. Segundo o Livro acima mencionado no periódico: Jornal Official - Semanário da Prefeitura
      Data: ANo I - 21 de maio de 1916, nº 6
      Local: Cidade de Tarauacá consta o relato da morte de Sólon da Cunha.

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    3. Como ninguém é feliz com a desgraça dos outros, ela teve o fim que mereceu doente,infeliz e sozinha. É um fato curioso além do assassino ter matado o marido, matou também o filho! Como uma pessoa acha tão natural conviver com o assassino que destruiu a vida de duas pessoas da mesma familia? Em troca de seus devaneios ela pagou um preço muito caro a troco de nada e por fim teve o descaso da sociedade e do jovem mancebo.

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  4. Quem não dá assistência abre concorrência!

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  5. Silvia,isso foi um tanto quanto simplista, não tratava se de "assistência",mas você tem alguma razão.

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  6. O que um garotão de olhos verdes não provoca numa mulher amoral e infeliz...

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    1. Amoral?saberia ao menos quem foi Ana de Assis senhor Dom?

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  7. A natureza humana é selvagem, moralista, cruel, é natural um estupro, um marido matar uma mulher em nome da "honra"...como se tirar a vida de alguém tivesse alguma honra, mas nossa sociedade é hipócrita, justa? Seria normal se fosse o contrário, Saninha foi valente sim, fazer o que fez naquela época tinha que ter muita coragem sim...valente, acreditou no amor até o fim, morrer todos nós vamos, ser feliz ou infeliz faz parte do nosso livre arbítrio senhores julgadores de plantão...

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  8. Tudo tem limite. Somente o Amor maternal não, não a limites. Poxa o rapaz matou o filho dela. Ela foi o pior exemplo de amar na historia desse triângulo amoroso.

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  9. È bastante desconcertante uma mulher que teve o marido e o filho assinado pelo amante acabar se casando com o assassino. É preciso que haja mesmo muito amor pela pessoa. Não é fácil julgar os atos cometidos por Ana. Com certeza ela deve ter sofrido muito, ter sentido muita solidão e abandono por parte do marido para acabar se envolvendo loucamente num romance que terminou em tragédia. Se foi errada ou não, não há como saber. E quanto ao marido, será que também não teve sua parcela de culpa em vista de que àquela época davam pouco ou nenhum valor à mulher. Só uma coisa fica desta tragédia: todos sairam perdendo.

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  10. È bastante desconcertante uma mulher que teve o marido e o filho assinado pelo amante acabar se casando com o assassino. É preciso que haja mesmo muito amor pela pessoa. Não é fácil julgar os atos cometidos por Ana. Com certeza ela deve ter sofrido muito, ter sentido muita solidão e abandono por parte do marido para acabar se envolvendo loucamente num romance que terminou em tragédia. Se foi errada ou não, não há como saber. E quanto ao marido, será que também não teve sua parcela de culpa em vista de que àquela época davam pouco ou nenhum valor à mulher. Só uma coisa fica desta tragédia: todos sairam perdendo.

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  11. Fácil julgar apontar. Pra quem ta de fora tudo e muito fácil. Só sabemos se o sapato aperta quando calcamos ele. Vigia o q falas e quem julgas.

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  12. Não julgo Ana. Não é fácil ser mulher ainda nos dias atuais. Que dirá início do século XIX. Tomar a atitude que ela tomou, de envolver-se com outro homem, e deixar para trás toda a segurança e estabilidade de uma família legítima! Essa mulher devia estar gritando por socorro e viu nos braços de um jovem o fogo e a paixão da adolescência arrancada no precoce casamento. Só foi julgada pela sociedade porque era mulher. Aliás, como hj. Admitiu no final da vida que dos três envolvidos nesse triângulo, a maior culpada era ela, prova de reconhecimento dos erros e desejo de mudança. Será que era a maior culpada? Só sabe o que se passa dentro de um casamento quem vive ele no dia a dia. Ausência de qualquer uma das partes causa carência sim. Cabe a cada um aceitar um relacionamento de aparência ou buscar algo melhor e tentar ser feliz. Foi isso que ela fez. Errou só na escolha do parceiro. É arriscar demais envolver-se com um menino. Falta de experiência. Que nos sirva de exemplo.

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  13. Perdão: no início do meu comentário falo início do século XIX, mas é início do século XX.

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  14. Não tem jeito,o que começa errado só termina errado,a coisa pode durar 20 anos mas sempre se cobra o preço no caso de Euclides da Cunha,todos pagaram só quem se safou foi a novinha que ficou com Dilermando e olhe lá porque até a filha que ela teve com ele ficou conhecida como a filha do assassino de Euclides da Cunha.

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  15. Não tem jeito,o que começa errado só termina errado,a coisa pode durar 20 anos mas sempre se cobra o preço no caso de Euclides da Cunha,todos pagaram só quem se safou foi a novinha que ficou com Dilermando e olhe lá porque até a filha que ela teve com ele ficou conhecida como a filha do assassino de Euclides da Cunha.

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  16. Não tem jeito,o que começa errado só termina errado,a coisa pode durar 20 anos mas sempre se cobra o preço no caso de Euclides da Cunha,todos pagaram só quem se safou foi a novinha que ficou com Dilermando e olhe lá porque até a filha que ela teve com ele ficou conhecida como a filha do assassino de Euclides da Cunha.

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